segunda-feira, dezembro 6

-

Certo do que sentia, calculou cada passo,
previu cada reação.

Certo do que fazia, errou cada passo,
assustou-se a cada reação.

Montado em seu cavalo era um homem mais forte. Podia olhar para os lados e não ver nada além de cabeças. As cabeças não podiam ver nada além do dorso musculoso de seu cavalo e depois só a lâmina fina de sua espada. O cavalo não via, galopava, forte e rápido, parando somente para desferir coices naqueles que o tocavam.

Depois de cabeças caídas, coices e longos galopes ele finalmente via o mar. O mar, ao olhar fundo nos olhos do homem, disse vacilante:

- Aquele que deixa em seu caminho um rastro vermelho não pode em mim habitar sem que eu o habite primeiro.

O homem, cansado de sua viagem, mal pode compreender as sábias palavras do mar e desmontou o cavalo deixando os pés tocarem a água. Tamanho foi seu alívio que não se pode conter e lançou-se entre as ondas espumantes que o engoliam e cospiam sistematicamente, parando somente quando não sentia mais a areia sob os pés. Flutuava forçosamente.

O mar irritado, em uma parte pela insolência do homem e em outra pela sua incapacidade de compreensão, puxou-lhe os pés e o manteve submerso. Aos poucos a boca do homem não pode se conter e deixou sair o ar que habitava os pulmões, vagarosamente o mar escorregou garganta abaixo e esforçou-se para conter os movimentos espasmáticos do homem até que este finalmente cessasse por completo sua luta e deleitasse os peixes com seu flutuante afundar.

O cavalo não via nada.

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  2. Muito bom...
    Mas um tal de tião já havia me contado esta...

    ResponderExcluir