terça-feira, fevereiro 23

A Ponte

Um dia saiu. Deu a volta no quarteirão e voltou. No outro dia foi mais longe, e no outro mais, e mais, e outro, e mais. Sempre voltava.

Um dia saiu. Deu a volta no quarteirão, seguiu pela rua perpendicular à sua, chegou à avenida e andou, muito. Não voltou. Era um mundo novo, o mesmo céu, só que mais azul. De repente, a fuga parecia tudo que ele sempre precisou. Na primeira esquina ficaram dois ou três amores não correspondidos, na segunda, algumas coisas que ficaram sem ser ditas e numa praça despejou tudo que seu chefe lhe disse um dia. 

Passando por uma ponte parou e olhou por alguns minutos o rio que corria sob ele. Não se sentia bem, não ainda. Juntou tudo, cada trauma não resolvido, cada resquício de sofrimento, cada resto de dor. Juntou tudo. Olhou para dentro, via todos os seus fantasmas reunidos em um só. Um grande fantasma que não queria deixá-lo. Então olhou o rio, nele havia fantasmas de todos, alguns acompanhados de seus donos. Pensou que se alguns deixavam seus fantasmas irem ele também o poderia, ou não. Imaginou todas as consequências. Planejou. Mudou de idéia, voltou atrás, mas resolveu. Pulou. Durante a queda pensou que podia não funcionar, mas relaxou quando sentiu os tornozelos apertados pela corda esticada. Ficou lá alguns minutos, pendurado. Viu seus fantasmas o deixarem, não sentia nem os tornozelos. Sorria, finalmente sorria.

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