quarta-feira, dezembro 23

Falava sozinho todos os dias, até por não haver outros que o ouvissem.

- Vale a pena? Não vale! Que grande desperdício seguir na vida se tudo em que consigo pensar é no que não terei a fazer amanhã. - E caminhava pela sala acendendo o cigarro e gesticulando - Tenho meia dúzia de amigos que mal vejo, meia dúzia de mulheres que mal amo e meia dúzia de moedas que mal valem. Não tenho mais forças. Só continuo se houver quem negue meus motivos.

Criou-se então, saído da fumaça do cigarro, uma forma conhecida e assustadora, porém nunca antes vista por ele. Disse em voz impostada:

- Nego! Eu nego teus motivos, eu lhe imponho o ônus da prova!

- E quem és tu? - Disse afogando o medo.

- Eu? Eu sou o espírito que nega! Desafiou-me e agora nego que tenha meia dúzia de amigos que mal vê: não passam de dois ou três que o visitam por não aguentarem suas lamúrias. Nego que tenha meia dúzia de mulheres que mal ama: nunca teve mais do que uma, que mal desconta teus cheques por piedade. E o dinheiro? Não tem nada na carteira, nunca teve!

- Acabado o discurso? Posso seguir com o suicídio?

- Permissão negada! Quem você acha que é para tirar a própria vida sob alegações tão fúteis? - Disse com dedo em riste.

- Sou o dono dela! E você, quem é?

- Sou o espírito que nega! Sou o carregador de almas criminosas, o carcereiro da penitência eterna. Sou eu quem decide quando morre cada verme que rasteja sobre a terra.

- Não seria Deus quem decide quando morremos?

- Seria, não fosse sua vasta bondade. Portanto, veja como negada sua permissão ao suicídio e siga sofrendo até que eu decida que basta.

- Se não me permite morrer por que, em lugar de contradizer, reforçou meus argumentos?

- Para que visse que estava errado, não valeria a pena deixar a vida tendo tamanhas alegrias! Agora sabe que realmente tem motivos para morrer, mas não pode, pois rejeito sua alma em minhas barcas.

- E se eu te desobedecer?

- Já ouviu falar em suicídios mal-sucedidos? Acha mesmo que alguém teria tamanho descuido?

- E o que me sugere?

- Eu sugiro, e veja bem minha bondade, que continue a fumar, que beba mais e com mais assiduidade e assista menos televisão.

- E o que a televisão tem com isso?

- Ela informa, e se alguém achar que você fuma somente para burlar as regras negará também sua alma. Dai vêm as sequelas vitalícias de determinadas doenças.

- Mas não é você quem faz as regras? Por que me ensina como burlá-las?

- Pobre rapaz, eu simplesmente lhe neguei a morte premeditada. Tenho um regimento a seguir, mas nele não há nada sobre o que posso e não posso falar.

- Ah! Que complicação por um simples suicídio, eu...

Subitamente a fumaça desapareceu. Tales caminhou até a porta, voltou à estante e acendeu outro cigarro. Então saiu.

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