quinta-feira, abril 30

Descalços

Olhando por baixo do portão dava pra ver os pés de quem passava na calçada, era só isso que eu fazia, olhar por baixo. Via quem passava, tentava identificar rotinas pelos sapatos e conversas altas, mas nunca abria e via rostos, seria amedrontador demais. Não era triste por viver assim, sentia prazer em ser ninguém no mundo enquanto via a parte mais suja de todos que passavam. Vez em quando passava um caminhão mais alto, muitas vezes eram trios elétricos indo ao carnaval, nessas horas até via rostos, todos estranhos e que não se relacionavam aos pés. Era essa minha rotina até o dia em que um ela ficou parada em meu portão para se esconder da chuva. Era descalça e tinha uma pequena tatuagem de borboleta no pé esquerdo. Lindos. Os pés mais perfeitos que já tinha visto em anos. Todos os dias esperava por ela com amor, só para vê-los novamente, mas nunca passavam. Uma vez, uma única vez eu queria vê-los, quem sabe eu teria coragem de abrir o portão. Eles nunca vieram, eu fiquei ali, olhando, esperando. Já não era prazeroso, a cada dia sentia mais medo de não vê-los, medo de que minha prisão fosse realmente eterna. Passaram-se anos. Não tem mais sentido essa vida. Se agora lê o que escrevi pode encontrar um corpo putrefato perto do armário, e à ela, que nem sei quem é, digo: te amei, só pelos pés, te amei.

Um comentário:

  1. Os maiores amores de nossas vidas, foram aqueles que nunca aconteceram.
    x)

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