segunda-feira, dezembro 1

-

queria eu poder dizer que todos os amores são eternos
que os suicidas são só homens que tropeçam nas pedras
que o sentido não está no presente mas sim no caminho a seguir
e que os lamentos são uma breve e passageira falta de sentir.

conte pra mim apenas mentiras:
a doce ilusão de um dia fugir;
a crença de proibido possível;
a fé no fruto do conhecimento consentido.

queria eu acreditar nas promessas que te faço
que aos poucos o tempo faz eternas as verdades que minto

por que o que eu queria era um alguém pra dividir poesia
que estremecesse a cada balbuciar fantasiado
acreditasse firmemente no incrível
e ainda por cima tivesse fé no impossível ideal.

do poeta que morre

-

sinto saudades , sem a mar o que foi e
sem querer voltar aos balanços da infância.

sinto saudades das coisas da infância.

não desejaria ser de novo criança,
não repetiria os erros
- não por que me arrependa,
não que sinta raiva -
mas, se soubesse não faria.

sinto saudades, sem anseio de tê-las,
das madrugadas e amanheceres.
mas
sinto saudades das madrugadas e amanheceres.

não tomaria da mesma garrafa,
não tropeçaria na escada
- não que me envergonhe,
não que escondesse -
só, já vivi e foi.


-

Eu ia sair de casa quando começou a chover.
Botei o pé na calçada e voltei.
Entreabri a janela e sentei.

Acendi um cigarro no engrossar da água.
Desisti do que ia fazer e avisei,
que não saia com chuva, que era lei.

Um homem e seu tempo precisam se encontrar.
E um dia que o tempo chegue,
não deve o homem fugir, não sem encará-lo de frente.
Corajoso e odioso. Como às vezes deve-se ser.

sexta-feira, abril 25

-

que sujeito chato sou eu!
- e daqueles que o plágio não evita.
acho tudo isso um saco.

e um outro chato seria!
- e daqueles que do erro não fugia.
chato ainda seria se tivesse nascido rato.

segunda-feira, março 17

-

A questão é se preciso agora
E se gosto preciso e quero
Soltando os ombros levo
E vez um quando perco a hora

Poluo de dentro pra fora
Jogo o resto pro teto
Joelho mas não peço
E ainda penso se quero

E pensando as vezes me pego
Pensando se o que é agora
Será sempre querido
E me entristece saber que o querido hoje
Deixara de ser amanhã ou depois.
E pensar que quando o querido esquecido for
Doloroso será lembrar do que foi
querido que ainda é e será
Esquecido que seja quando for
será querido.

segunda-feira, julho 29

Feito lama.

Enquanto a cabeça vai distante
a maldição que nos recai soa longe.
Espera quieta, na esquina, e pega.
Assim que vira na avenida.

Desvaira em fuga e por fim
a maldição que nos recai resiste.
Agarra no pé, com força, e puxa.
Põe trôpego o velho equilibrista.

E entre as loucuras das paixões
a desgraça antiga se esconde.
Disfarça-se, velha, e engana
Na forma de uma jovem filha.

Feito lama.

segunda-feira, janeiro 21

Meio e Mensagem

A partir de hoje, é lei,
tudo poetiza
num melaço mentiroso,
de sorrir.

É proposta, assim será,
será a regra máxima.
E agradará ao público.



sexta-feira, novembro 16

-

E por fim, ao virar a última página do livro, os olhos mareados não criam no que viam. O branco, o vazio sem letras da estória que acabara de se encerrar ameaçava e expandia-se em um grande vácuo. Nenhum livro acaba assim. Mesmo os mais incrédulos dos personagens tem seu trajeto justificado em seus heroísmos. Não é justo que acabe assim. Maldito seja Aristóteles e maldita seja sua tragédia que nunca reproduziu mais do que criou os caminhos tortos que seguimos. O vazio grita um silêncio. A Culpa é Sua.

domingo, abril 1

Por que puta?

- Que puta sono.

- Eu não.

- Falo de mim.

- Puta ou sono?

- Puta.

- Por que puta?

- Porque puta me poe do teu lado quando eu tenho vontade.

- E isso te faz puta e é bom?

- Puta porque você me poe quando tem vontade. Isso é bom?

sábado, novembro 12

Lá e cá

Ver as fotos me faz ter saudade de lá.
Nunca vi, nem pensei, mas agora sinto falta de lá.

Era um lugar quente,
às vezes mal se podia respirar.
Mas, mesmo assim
eu sinto falta de lá.

Mesmo assim eu acredito,
e não perco por esperar.
Sei agora é lá,
mas ela volta pra cá.

quinta-feira, outubro 13

Rapazinho folgado aquele. Dizia pra todas as mulheres que as amava e elas o amavam de volta e de mentira.

domingo, janeiro 23

-

Meu amor, eu sinto muito, muito, mas vou indo. Eu sei, já é pronta essa, mas é só o que eu queria dizer. Eu podia ficar, podia mesmo, mas tem tanta coisa me empurrando, tanta coisa. Você sabe!
Eu até queria ficar, eu até queria esperar a coisa acabar e no fim só lembrar de você nas coisas boas. Você sabe que eu vejo flores em você.
Você sabe que eu ando meio 80's, não sabe?

domingo, dezembro 26

-

Tem uma força maior que nos mantém
afastados.
Não é um escolha minha ou sua ou nossa,
os decididos decidiram assim.

Essa força maior escolhe o que amamos
e escolhe o que nos ama e o que odeia.
Escolhe o campo, a praia, o vento, a chuva.
Só não escolhe o sol, por que ele escolhe também.

Tem um sol que não escolheu, o meu.
Anda indeciso, não sabe se brilha ou queima.

segunda-feira, dezembro 6

-

Certo do que sentia, calculou cada passo,
previu cada reação.

Certo do que fazia, errou cada passo,
assustou-se a cada reação.

Montado em seu cavalo era um homem mais forte. Podia olhar para os lados e não ver nada além de cabeças. As cabeças não podiam ver nada além do dorso musculoso de seu cavalo e depois só a lâmina fina de sua espada. O cavalo não via, galopava, forte e rápido, parando somente para desferir coices naqueles que o tocavam.

Depois de cabeças caídas, coices e longos galopes ele finalmente via o mar. O mar, ao olhar fundo nos olhos do homem, disse vacilante:

- Aquele que deixa em seu caminho um rastro vermelho não pode em mim habitar sem que eu o habite primeiro.

O homem, cansado de sua viagem, mal pode compreender as sábias palavras do mar e desmontou o cavalo deixando os pés tocarem a água. Tamanho foi seu alívio que não se pode conter e lançou-se entre as ondas espumantes que o engoliam e cospiam sistematicamente, parando somente quando não sentia mais a areia sob os pés. Flutuava forçosamente.

O mar irritado, em uma parte pela insolência do homem e em outra pela sua incapacidade de compreensão, puxou-lhe os pés e o manteve submerso. Aos poucos a boca do homem não pode se conter e deixou sair o ar que habitava os pulmões, vagarosamente o mar escorregou garganta abaixo e esforçou-se para conter os movimentos espasmáticos do homem até que este finalmente cessasse por completo sua luta e deleitasse os peixes com seu flutuante afundar.

O cavalo não via nada.

sexta-feira, novembro 26

-

Eu quero de volta.
Tudo que era meu vai voltar a ser.
E por um pouco mais de evolução
vou refazer a devolução dos roubados.

Um braço fraco, a strong heart.
Mais um pouco e não volto mais.
Luto. Por mais um morto eu luto.
E sempre fight the war, fuck the norm.

segunda-feira, novembro 15

-

Eu não minto, faço a verdade minha. Tomo posse da realidade e desconstruo, construo e destruo tudo em volta.  Não há corrente que não se quebre e ligação que não se rompa, quanto mais se retorce maiores as chances de se enforcar.

segunda-feira, novembro 1

Sim, é ela.

E fez-se a vontade do povo.
Se ela é de verdade? Ninguém sabe.
A gente acredita, a gente insiste.
Mas isso só por que um da gente
Não existe.

sábado, outubro 23

Meu

Chamo meu tudo aquilo que tirado de mim fará falta. Vê aquele hospital? É meu, é meu desde o dia que comecei a buscar remédios lá. Vê aquela escola? É minha desde que meu filho estuda lá. Não chamo meu aquilo que posso dispensar a outro que me tire, mesmo que comprado por mim.

segunda-feira, outubro 11

-

Eu declaro este corpo inabitado. Olhem bem, vejam as escoriações mais profundas que a carne. Este corpo não  é mais possuído, nem pelo mais impuro dos demônios. Este corpo. Veja o rasgado do peito, se vê as entranhas, se viu um dia até coração. Não se fecha mais. Não há como cicatrizar o corte feito por si só numa vontade imensa de vomitar. Este corpo não merece nossa mera observação. Este corpo. Este corpo, que por mais velho que seja ainda viveria por anos. É triste, é finito.

quarta-feira, setembro 8

-

Eu crio e descrio meus sentimentos. Mando em todos eles.
Quando canso de um vou logo pra outro, só não posso ficar sem nenhum.

Aquele que duvida de mim experimente me amar.

terça-feira, setembro 7

Olho por Olho

Eu olhava pra ela.
Ele também olhava pra ela.
Ela, vez em quando, olha para ele,
vezes olhava o ar.
Eu lhe lançava os mais belos olhares.
Ele lhe pedia piedosamente que ficasse.
Ela, aceitava os belos e os dava a ele.

Ele por vezes olhou pra mim,
dos olhos dele saíram mil ofensas
que ao baterem nas minhas lentes escuras
voaram diretamente ao âmago do escárnio.

Eu olhei para o céu e ri.

sábado, agosto 21

-

Todo vômito tem um dedo na goela.
Toda mentira é em si sórdida.
Toda ação é uma reação.
Todo amor agride.
Todo modo é vago.
Toda solução é problemática.
Toda métrica é lixo.
Toda morte é redenção.
Todo suicídio é confissão.

sábado, julho 17

-

Eu temia o futuro, ai ele se fez presente.
Agora já não temo. Fujo e me escondo.
Meu temor agora é do passado.

terça-feira, julho 13

-

Anda. Para e olha, simplesmente.
Atinge seus olhos diretamente.
Não se mexe e não alcança dali.
Aponta o pensamento, mas não ousa sair.
Teve um impulso, pensou. Eu vou.
Mas o pensamento se perdeu, não chegou.
Sabia que queria, que poderia.
Não arrisca, a negativa só envergonharia.
A vergonha do corajoso é pública,
a do covarde é puramente sua.

segunda-feira, julho 12

-

Mataram o escritor.
Deram-lhe dinheiro condicional,
chamaram-lhe funcional.
Quando pegava a pena, projetava.
Quando via rima, divulgava.

quinta-feira, junho 24

-

Unimo-nos, pois até entre amigos
há de haver um vencedor.

Que até uns entre outros
hei de atacar e hei de defender.

Que maiores as partes
fará-se maior o todo.

Que chegado o fim seremos sós
e eu, eu hei de ser com você.

sexta-feira, junho 18

-

E de fato entretem.
Brilha, pisca e entretem.

E de fato engana.
Mente, conta e engana.

E de fato ganha.
Vende, compra e ganha.

E de fato é fuga.
De fato salva.
E amamos.
E assistimos.
Da pra ver que eu estou cansado, a escuridão que circunda meus olhos até exarceba a escuridão que os cobre. Nesse ritmo, meu ritmo? Defina o cansaço que eu te defino a dedicação e, sem mais nem menos, eu canso também.

quinta-feira, junho 17

Tinha se perdido entre os papéis há tempos, já nem sabia o que escrevera para quem e para quando e para onde. Era um poeta fadado ao esquecimento, ele próprio ia esquecer - já vinha esquecendo - que foi poeta um dia.
A cabeça, agora lustrosa, já nem pensava mais em flores e poesia, em poucos ou no dia.

terça-feira, maio 18

Inconsequente

Imaginário. Assim se definia. Entre umas e outras coisas se fazia mais imaginário. Vivia sozinho, longe da cidade e longe de gente. Às vezes tinha até medo de gente. Escrevia, pouco, mas constante, como um córrego de águas sujas. Só.
Bebia de vez em quando. Bebeu tanto um dia que não mais se lembrava do que fez. Abriu um livro, achou um bilhete:

"Por que ainda insistes em ser poeta? Por que teimas em escrever se sabes que seus conjuntos de palavras não passam de versos óbvios que qualquer um poderia fazer melhor?
Desistas de ser poeta e arrume algo realmente produtivo para fazer. Ser assim não te levará a nada. Seu bosta..."

O bilhete datava do dia anterior, a noite da qual não se lembrava. Alguém mais lhe acompanhava ou era simplesmente um lampejo de bom senso causado pelo álcool? Pensou. Acendeu um cigarro e dormiu.

domingo, maio 2

-

E quem é você para dizer que eu mentia?
Fingir agora que nada foi mais que nada é mentir.
E qual de nós mente agora?
Eu minto, admito.
Mas você, você sente?

quarta-feira, abril 21

.

Eu sou o Eu montado.
O eu inexistente,
às vezes até incoerente.
Quando desmontado?
Desmontado sou eu diferente,
tenho até medo de gente.

É.

É assim, na insanidade temporária,
que nos tornamos sinceros.
Entre uma verdade e outra
não saem mentiras.
Mas confesso, desse jeito
saem péssimos versos.

terça-feira, abril 20

Trabalho

E é o trabalho que me toma o tempo.
Trabalho que dá pouco contento.
Não sei se consigo, mas tento.
Versar bem é pra quem tem tempo.

quinta-feira, abril 1

Mulher Amada

Não quero um namorado.
Sou uma mulher feliz.
Ele disse que me amava,
mas não quero ser amada.
Não me importo com ele,
que tenha amigas e amigos,
que me deixe de lado sem querer.
Não o quero.
Não quero um namorado.
Quero ser livre e desempedida.
Livre e feliz.
Posso ser feliz sozinha.
Já sou feliz.
Alcancei a felicidade.
Sim, sim. Sou feliz.

segunda-feira, março 29

Balanço

Como gostaria em meus tempos de juventude, que não se foram a muito, de ter a reveleção que agora tenho. Por que não me veio alma celeste capaz de convencer-me? Por que não ouvi quando me gritaram? Agora minha tristeza não se resume aos anos que perdi, mesmo por que eles não foram plenamente perdidos. Minha tristeza se perfaz nas pessoas que perdi enquanto perdia a oportunidade de viver, o mundo que me era disponível a pouco tempo atrás tornou-se um vazio distante e inatingível. Penso no futuro, mas sei que meu passado não vai me deixar. Meus erros são meus demais para serem desfeitos.

segunda-feira, março 22

Amizade

Entre discurso e discutido.
Perdido.
Via maneiras, caminhos.
Vinhos?
Do que falo agora?
Prenda-a!

Gosta de vinho?
Pouquinho,
Prefiro cerveja.
Que seja.
Eu também. Escura?
De lua.
Eu também. Mais um?
Uhum,
Por favor, mas já vou sair.
Vou pedir.
Dois chopes, garçom.
Que dom!
Ele te atendeu rápido.
Hábito,
frequento o ambiente.
Inteligente,
Conhece sempre o garçom.
É bom.
Saio sem pagar se necessário.
Eu não saio.

-

Esse é o meu jeito de morrer:
aos poucos.
Vou cansando e seguindo, como sempre:
um frouxo.

Fraco por que verso não segue verso, por que verso se perde de verso e aos poucos aquele que era primeiro já nem importa mais enquanto o último nem sabe que fila é essa que segue. Entre as semelhanças perdem-se a essência e a beleza, ficam para trás a rima e a métrica. A quem souber escrever envio minhas tristezas, faça bom uso delas.

quinta-feira, março 18

-

Não dói só por deixar,
dói por não estar lá.
Queima o ciúme por não ser eles,
e você, toda deles.
Vai, me deixa.
Só não volta nos pequenos detalhes
pra me assombrar.

terça-feira, março 16

Diga

Diga que não e eu cordialmente me afastarei,
tristemente, porém sem me deixar abater.
Eu posso assumir a responsabilidade e dizer que errei,
mas garanto: não vou te esquecer.

Diga que sim e eu cordialmente te beijarei,
contente e satisfeito, só por sim você dizer.
Eu vou assumir a responsabilidade, dizer que te roubei,
e garanto: não vou te esquecer.

Só não diga "talvez", pois eu cordialmente te amarei,
em conflito, porém sem me deixar abater.
Vou assumir a responsabilidade, sem saber se errei
e ainda assim garanto: não vou te esquecer.

segunda-feira, março 8

Tentei

- Desculpa, não deu.

- Como assim não deu? Você disse que ia escrever algo pra mim!

- Não rolou inspiração, não dá pra escrever do nada!

- Escritor de merda...

domingo, março 7

Fria Rotina

Todos os dias, sempre igual. Tirava as tralhas da cama, afofava o travesseiro que vinha sobre as almofadas e estendia o cobertor. Depois ligava o ventilador, desligava a luz e ligava a TV; nesse liga-desliga sorria e deitava-se feliz para dormir.

Porém, era nas noites frias que as coisas mudavam, era nas noites frias que sentia falta da mão quente a fazer-lhe carinho. Sentia falta do peito onde apoiar a cabeça até que o sono viesse e do beijo quente de boa noite que o enchia de amor. Era nas noites frias que o gélido fantasma do seu passado voltava para o assombrar. Nas noites frias, tirava as tralhas da cama, afofava o travesseiro que vinha sobre as almofadas e estendia o cobertor. Depois desligava a luz e ligava a TV. Deitava-se para dormir e chorava.

terça-feira, março 2

Uma Noite

Acendeu o quinto cigarro do dia, olhou pela janela e pensou na beleza da Teodoro. Viu um hippie calmo vendendo saias, um evangélico apressado para o culto, dois yuppies com seus copos da Starbucks. Isso é a beleza da Teodoro, a mistura. Olhando para dentro pensou na bagunça que sobrara da noite anterior, ela nem ficou para o café, talvez por ter visto a condição deplorável da cozinha. Ia saindo, mas resolveu tomar uma cerveja antes. Em direção à geladeira recolheu duas garrafas de saquê próximas ao sofá e com os restos derramados no tapete. Lembrava pouco da noite passada, alguns flashs. A unica imagem que não lhe fugia era dos olhos dela semi-cobertos pelos cabelos loiros e apertados de prazer. Deixou as garrafas sobre a pia e lavou a face, tentando lavar as memórias inconcretas que o lembravam que esquecera toda a noite. Apoiando as mãos na beira do balcão notou sobre a mesa de centro, entre seus manuscritos desorganizados como sobrelidos, um bilhete a tinta e uma rosa. Vagarosamente caminhou e pegou bilhete, olhou frente e verso sem ler e sentou-se no sofá, afastando antes as latas vazias. Acendeu o sexto cigarro do dia e leu:

"Otávio, sei que mal vai se lembrar de nossa noite. Conheço você e isso não importa. Lembrar-me-ei de cada palavra que me recitou ao pé do ouvido, mas não posso ficar. Não sou para você, apesar de nossas semelhanças temos poucas grandes diferenças que me fazem sair e tentar não lembrar teu rosto. Sou um ser livre, sou uma alma perambulante nas noites paulistanas. Imagino que conceitua uma mulher fútil e fácil, mas lhe garanto que o que tivemos não foi uma simples busca pelo prazer carnal, foi algo mágico. Mágico enquanto passageiro, e é para manter a magia que me retiro apressada de sua agradável companhia. Enquanto você dormia li seus manuscritos, espero que não se importe por ter feito algumas notas a lápis nos trechos que mais gostei. Já vou. Não vou me despedir, e se me reencontrar não se acanhe.
P.S.: A rosa é sua, guarde-a como quiser"

"

segunda-feira, março 1

-

Consegue ouvir? É a chuva!
Sim! É o glorioso choro dos deuses.
Olha, olha! É a chuva.
Vê como molha o chão?
Vê? É a chuva!
É a sinfonia desritimada que me acalma.
Ouve, sente como te toma a cada gota.
É a chuva! É a chuva!
Ah, meu desespero.
Pudera sair em busca do teu toque.
Você, minha chuva.
Enquanto longe de mim
só o pouco que me resta é amar.
Ah, meu desespero.

quinta-feira, fevereiro 25

Ei! Segura minhas mãos.

Ei! Segura minhas mãos.
Olha bem fundo nos meus olhos.
Sente? Eu te conheço agora.
Vi em seus olhos a alma,
senti nas mãos, coração.
Sente? Somos um agora.
Não negue seu sorriso.
Deixe-o sair, venha comigo.
Vem! Eu te levo agora.

terça-feira, fevereiro 23

A Ponte

Um dia saiu. Deu a volta no quarteirão e voltou. No outro dia foi mais longe, e no outro mais, e mais, e outro, e mais. Sempre voltava.

Um dia saiu. Deu a volta no quarteirão, seguiu pela rua perpendicular à sua, chegou à avenida e andou, muito. Não voltou. Era um mundo novo, o mesmo céu, só que mais azul. De repente, a fuga parecia tudo que ele sempre precisou. Na primeira esquina ficaram dois ou três amores não correspondidos, na segunda, algumas coisas que ficaram sem ser ditas e numa praça despejou tudo que seu chefe lhe disse um dia. 

Passando por uma ponte parou e olhou por alguns minutos o rio que corria sob ele. Não se sentia bem, não ainda. Juntou tudo, cada trauma não resolvido, cada resquício de sofrimento, cada resto de dor. Juntou tudo. Olhou para dentro, via todos os seus fantasmas reunidos em um só. Um grande fantasma que não queria deixá-lo. Então olhou o rio, nele havia fantasmas de todos, alguns acompanhados de seus donos. Pensou que se alguns deixavam seus fantasmas irem ele também o poderia, ou não. Imaginou todas as consequências. Planejou. Mudou de idéia, voltou atrás, mas resolveu. Pulou. Durante a queda pensou que podia não funcionar, mas relaxou quando sentiu os tornozelos apertados pela corda esticada. Ficou lá alguns minutos, pendurado. Viu seus fantasmas o deixarem, não sentia nem os tornozelos. Sorria, finalmente sorria.

-

Saiu de costas para mim.
Era só preocupação,
mas ela não entendeu.
Senti rasgar cada pedaço,
senti morrer cada parte.
Sabe o pior?
Não senti por seu abandono,
senti por não me entender.
É amor, sim!
E quando amor é ruim?

quinta-feira, fevereiro 18

-

É, agora só. Olhar em volta me basta para reconhecer os erros que cometi e para notar as consequências deles. Eu tive tudo, eu vi tudo, eu fiz tudo. Errei, admito, mas foi por querer acertar demais. Olhem para trás, podem ver minha'lma putrefata a seguir-lhes? Sou eu quem vos assombrará, eu serei a culpa. Inocentes? Sim, são. Mas eu não serei, portanto não hesito em culpar-lhes pelos meus erros. Meus erros, cada um dos meus pequenos erros, vai me acompanhar e ,enquanto eu soprar-lhes ao ouvido palavras assustadoras, eles me sopraram piores. Cada palavra que lhes feriu foi proferida a mim antes de ser por mim. Por isso vou vagar até achar alma solitária que me acompanhe, será a sua? Será que quando alma fará o que não fez enquanto corpo? Oh, mil perdões se os incomodei com minhas pobres lamúrias, foram sinceras, mas não eram para ser ditas. Talvez não ainda. Quando o momento for oportuno poder-se-á compreender minhas palavras, até lá, ignorem-as, pois aqueles olhos ainda verei ao pico do sol, pois aqueles olhos ainda chamarão minha alma de volta ao corpo, talvez tarde demais.

Lembra-se de quando tinha alma?

Lembra-se de quando tinha alma?
Lembra-se?
Morreste por dentro, amigo.
Enquanto eu morro por fora,
escancarado em minha dor,
você se esconde em felicidade falsa.
Sente agora? Acorda!
Tua vida não pode ter sido tão falsa,
já sentiu antes, já foi amável.
Triste por você.
Triste pelo mundo que te perde.
Entenda, no fim é compaixão, lembra-se dela?

segunda-feira, fevereiro 15

É chegada a hora.

- ...você sabe, eu sempre fui um apaixonado. Por isso estou aqui.

- É, de fato, mas conta, como foi isso?

- Você viu tudo, a viu também. Você não é onipresente, oras?

- Sim, sou. Mas adoraria ouvir a sua versão.

- Certo. Lembra-se da minha situação depois daquele problema, certo? Aquela garota, aquele tempo todo. Pois então, eu estava frágil, estive a ponto de vir pra cá, mas não era a hora. Depois de um tempo fui superando tudo, e no meio disso outras pessoas apareceram, a maioria passageiras e sem importância, mas não a última. Ela encantou-me, fez-me sentir como nunca antes. Ah, e que olhos tinha, olhos de ressaca, como disse aquele cara ali num dos seus livros. Enfim, ficamos juntos um certo tempo, foi tudo amor, era tudo lindo, era tudo que eu queria. Era. Não sei bem como, nem por que, mas tudo foi indo, parecia que o vento foi levando toda minha recém conquistada felicidade aos poucos. Depois disso tudo parou de ter sentido, meus antigos fantasmas me assombravam juntamente com os novos. Eu era todo morte, eu era todo fim. Escrevi minha carta de suicídio e cá estou.

- Você acha mesmo que isso lhe dá lugar no céu? Suicídio por amor não o tornar mártir.

- É?

- É. Tem duas opções, voltar à vida ou ir para o inferno.

- Volto para a minha mesma vida?

- Sim.

- Qual a porta do inferno?

quinta-feira, fevereiro 11

-

Teus olhos,
teus olhos me chamam.
E todo meu corpo se deixa.
Mas tua boca,
tua boca me foge.
E todo meu coração se retorce.

-

Teus olhos são minha fraqueza.
Meu beijo, minha franqueza.
Se não beijo, ainda amo.
Meu coração só por ti bate tanto.
E se agora porcamente rimo,
é por teu rosto tão lindo.

-

Euforia

terça-feira, fevereiro 9

Olhos

Vi-a deixar-me lentamente.
Entre as frestas da cortina
afastou-se o vulto.

Vi-a reencontrar o amor.
Me dizer, olhando nos olhos
quantos homens a amaram, mais e melhor.

Depois me vi revigorado.
Vinha também remoçando.
E agora também canto, sem nem por quê.

segunda-feira, fevereiro 8

Deixa

Deixa que o espírito sorria!
Deixa a vida explodir.
Isso é a felicidade:
No bater do grave,
no chocalho e seu sussurro.
E a cada passo frente
sinto meu coração.
Cada passo trás
sinto minha'lma.
Pois, sim, amo o som.
Pois, sim, amo a dança.
E sim, faz-me feliz o suor e a rouquidão. 

sexta-feira, fevereiro 5

Proposta Indecente

Vem comigo!
Vem que eu te dou o mundo.
Vem que eu te dou o fim da dor.
Verá! O que basta é o amor,
e isso te dou, isso tudo.

Não pensa, deixa ser.
Deixa tudo pra trás,
deixa tudo, vem comigo!
Foge e deixa a casca,
abandona tuas correntes.
Quebra por entre as paredes.

Vem que dou tudo.
E se não basta
te dou o resto.
Deixa-te cativar pela beleza.
Deixa-te amar.
Deixa-me te amar.

quinta-feira, fevereiro 4

Chá e Livros?


- Meu chá esfriou, alguém fez café?

Perguntou fechando o livro. Ninguém fizera café, um bando de jornalistas que mais se preocupavam em ler e escrever do que em alimentação. De fato, nenhum deles sequer recuou os olhos para olhar quando Nicolau falou, nem mesmo ele olhou esperando resposta. Levantou-se carregando consigo isqueiro e um maço amassado de cigarros.

- Não posso fumar aqui dentro?

- Não! - Uníssono.

Já estava cansativo tantos dias só esperando uma declaração do presidente deposto. Sem contar a incompreensão de seus colegas que insistiam em dizer que um quarto-redação não era lugar de mulheres, bebidas e cigarros, mas sim de trabalho. Que trabalho? Gritava em resposta enquanto saia para fumar na varanda.

Olhava para baixo, sempre. Gostava de ver as pessoas na rua gritando palavras de ordem naquela língua incompreensível. Não entendia por que falavam em dialetos estranhos em lugar do inglês oficial, mas gostava do som daquelas palavras. Numa noite tumultuada tomou coragem e desceu com a câmera em punho para filmar aquele alvoroço. Sabia que os editores não ligavam para os protestos, mas ele também não ligava para o presidente, então estavam quites.

- Olha cá! Look... - gritou para um rapaz sentado na guia, esperando não ter que continuar com seu limitado inglês. - Talk!

O rapaz tinha seus quinze anos, o cabelo raspado deixando ver as cicatrizes de sua pele negra. Enquanto olhava para o chão Nicolau insistia - Talk! O garoto levantou a cabeça, ignorando a câmera olhou diretamente nos olhos do curioso jornalista. Quão sombrios eram aqueles olhos não posso descrever.

- Talk!

Não falava nada, só olhava, e de seus olhos cheios vazava melancolia. Sua respiração ofegante fazia as ventas abrirem e fecharem, sua boca não expressaria nada se não tristeza muda. Não piscava. Nicolau não podia se mexer, estava hipnotizado por aqueles olhos e não ouvia os gritos, as bombas de gás explodindo. Sua hipnose foi quebrada somente por um movimento lento do garoto que pôs a mão para trás, levantou a camisa e tirou de sua bermuda surrada uma arma. Brilhava, com certeza nunca fora usada. Pensou em em correr, mas não se sentia ameaçado. A arma encostou lentamente na cabeça lisa, perto de uma cicatriz recente. Sem desviar os olhos de Nicoulau, puxou o gatilho.

- É isso? Acha que foi até a África para ler e tomar chá? Nenhuma foto do presidente? Diga-me pelo menos que filmou algo naquela sua câmera vagabunda, assim algum jornalista melhorzinho escreve uma matéria!

- Nada.

Não olhou para seu editor, só apertou em seu bolso a fita daquela noite.

quarta-feira, fevereiro 3

Homem Desfeito

Será essa minha grande paixão?
Meu grande sofrimento?
Será a mais breve e bela
também a mais fulminante?
Não sei. Sei que amo.
Amo por pouco, mas por tudo.
Detalhes não me importam,
não são detalhes.
Homem desfeito.
Aceito meu desfecho.

Eu?

Parabéns, parabéns!
Venceste, maldito destino.
Sou novamente só.
Feliz?
Conseguiste tua vontade.
Agora vem!
Tripudia sobre o cadáver.
Ri da minha tristeza
e humilha o restante.
É, você, que não quis ouvir.
Fugiu e agora me assombra.
Ri. Ri alto.
Mas disfarça o riso com choro.
Assim usufrui da compaixão alheia
e, quando no auge, maldiz-me.
Quem ama?
Você, é claro!
Quem sofre?
Você, é claro!
E eu?
Eu só sigo.
Sou mal. Sou vilão.
Fiz-te sofrer, certo?
Então pode parar.
Já invertemos os papéis.
O vilão não perde no final?
Pois bem, é chegado meu fim.

terça-feira, fevereiro 2

-

Para que se sobe ao topo?
Para a queda ser fatal.

Por que?

Por que? Há resposta óbvia?
Não há de haver.
Não há sentido.
Depositei nela meu viver,
me resta o pouco.
E agora, enlouquecer?
Talvez. Talvez.
E depois de louco?
Me resta morrer.

segunda-feira, fevereiro 1

Também?

- Eu te amo, não me canso de dizer isso. Amo. Simples. Amo. E se eu banalizo meu amor repetindo "Eu te amo! Eu te amo!" é por que não consigo dizer pouco algo que sinto muito.

- Eu... eu... eu também.

- Também? Tá, pareceu sincero.

sexta-feira, janeiro 29

Complexo

É complexo.
Faria qualquer coisa,
só para não te amar.

É simples.
Você some e eu morro, 
ninguém mais terá a quem amar.

Assim viveremos felizes para sempre.
Eu, você e ele.

quarta-feira, janeiro 27

Engano?

É mais difícil que isso.
Seria tão mais simples
se não fosse belo.

Não é tão belo.
Seria tão mais belo
se fosse simples.

Escrever é belo.
Escrever é simples.
Mas não alcança.

segunda-feira, janeiro 25

Terminal

http://www.flickr.com/people/anaflaviasiqueira/


Parada, como um anjo que descansa depois de um dia de vidas salvas. Olhava para os lados, ajeitava a bolsa pesada no ombro e olhava o relógio, repetia o ritual sistematicamente.

Esperava por alguém, não sei quem. Talvez o pai ou o namorado. Fiquei imaginando sua história.

Saiu de sua cidade já saudosa, chorando pelos amigos, pelas casa, ruas e tudo que estava deixando. Enquanto viajava pensou em como seria a vida com seu pai em um lugar onde não conhecia nada, mas teria que conhecer, já não tinha sua mãe para abrigá-la. O pai, um alcoólatra desde que se mudara, não queria a filha por perto, sabia que não seria fácil a convivência dela com sua nova mulher e novos filhos, mas, sendo seu responsável, aceitara sua obrigação. Ela não queria morar com o pai, também sabia das dificuldades e mais, sabia que não era bem-vinda.

Enquanto via as árvores voarem do lado de fora lembrou de sua infância, da mãe apanhando, do pai amaldiçoando a vida e imaginou, com uma ponta de otimismo, se seria diferente agora. Seus pensamentos voaram e se transformaram em sonho enquanto dormia desconfortável, sendo acordada abruptamente pelos desníveis do asfalto. Sentindo o ônibus parar abriu os olhos e viu rostos felizes e tristes carregarem seus corpos porta afora, esfregou os olhos, pegou sua única pequena mala e saiu desnorteada pela estação rodando em busca de seu pai que a buscaria. Deve estar atrasado, só pode estar atrasado. Assim confortava seu pensamento. Prostou-se então no centro de tudo, podia ver todas as entradas e ser vista por todos que entravam, não haveria como não ser encontrada. A mala pesava em seu ombro, mas temia deixá-la no chão e ser vítima dos marginais dos quais fora previnida pelos amigos. Olhou para um lado, para o outro, ajeitou a mala e olhou o relógio, já escurecia.

Veio um homem, bem vestido, bonito e lhe fez companhia. Perguntou de sua vida e de sua família. Disse-lhe que não era fácil a vida na cidade, que ela teria que arrumar um emprego e se virar, mas que não se preocupasse, tinha gostado dela e a levaria para trabalhar com ele. Ela perguntou em que e ele lhe respondeu com palavras floreadas e incompreensíveis para sua mente simples.

Céu já escuro, ninguém apareceu. Vem comigo, pode ficar na minha casa essa noite. Ela aceitou e foi, agarrada à mala onde guardava uma fotografia da mãe, pouca roupa e sua boneca favorita.





Obrigado pela foto.


sexta-feira, janeiro 22

Quando eu crescer quero ser poeta,
vou escrever sobre o céu e a terra
e tudo aquilo entre um e outro.

Vou cair em clichês horríveis.
Fingir que amei e que não amo mais.
Matar personagens só pra não morrer.

quarta-feira, janeiro 20

-

Toda essa chuva.
Cada gota é uma explosão
no meu espírito preso.
Cada gota é um convite a sair,
a deixar, a me molhar.

Não posso, não devo.
Enquanto a fumaça se esvai
vou ficando, esperando ela voltar.

sexta-feira, janeiro 1

ZUZUUZ

Vou acender agora um cigarro.
Não dos de sempre, só pra variar.
Vou assistir atento ao começo
e vou tentar lembrar disso no final.

Parece tudo simples,
é barato falar que é.
A sinceridade às vezes dói
até mais que a mentira descoberta.

Eu sei, desconexos.
Mas assim foi saindo.
Rima? Métrica? Dia Mundial da Paz!
Não me encha o saco.

Por que verso?
Porque é chato ler um bloco de texto.
Você leria? Tá.
Eu também.

Vou parar, vou começar,
vou trocar, vou amar.
Ou não.

quinta-feira, dezembro 31

Covarde

Disse que a amava,
disse muitas vezes.
Disse tanto que ela não o ouviu.

Disse que morreria por ela,
disse muitas vezes.
Disse tanto que ela fugiu.

Disse que morreu,
disse muitas vezes.
Disse tanto que morreu uma só.

quarta-feira, dezembro 23

Falava sozinho todos os dias, até por não haver outros que o ouvissem.

- Vale a pena? Não vale! Que grande desperdício seguir na vida se tudo em que consigo pensar é no que não terei a fazer amanhã. - E caminhava pela sala acendendo o cigarro e gesticulando - Tenho meia dúzia de amigos que mal vejo, meia dúzia de mulheres que mal amo e meia dúzia de moedas que mal valem. Não tenho mais forças. Só continuo se houver quem negue meus motivos.

Criou-se então, saído da fumaça do cigarro, uma forma conhecida e assustadora, porém nunca antes vista por ele. Disse em voz impostada:

- Nego! Eu nego teus motivos, eu lhe imponho o ônus da prova!

- E quem és tu? - Disse afogando o medo.

- Eu? Eu sou o espírito que nega! Desafiou-me e agora nego que tenha meia dúzia de amigos que mal vê: não passam de dois ou três que o visitam por não aguentarem suas lamúrias. Nego que tenha meia dúzia de mulheres que mal ama: nunca teve mais do que uma, que mal desconta teus cheques por piedade. E o dinheiro? Não tem nada na carteira, nunca teve!

- Acabado o discurso? Posso seguir com o suicídio?

- Permissão negada! Quem você acha que é para tirar a própria vida sob alegações tão fúteis? - Disse com dedo em riste.

- Sou o dono dela! E você, quem é?

- Sou o espírito que nega! Sou o carregador de almas criminosas, o carcereiro da penitência eterna. Sou eu quem decide quando morre cada verme que rasteja sobre a terra.

- Não seria Deus quem decide quando morremos?

- Seria, não fosse sua vasta bondade. Portanto, veja como negada sua permissão ao suicídio e siga sofrendo até que eu decida que basta.

- Se não me permite morrer por que, em lugar de contradizer, reforçou meus argumentos?

- Para que visse que estava errado, não valeria a pena deixar a vida tendo tamanhas alegrias! Agora sabe que realmente tem motivos para morrer, mas não pode, pois rejeito sua alma em minhas barcas.

- E se eu te desobedecer?

- Já ouviu falar em suicídios mal-sucedidos? Acha mesmo que alguém teria tamanho descuido?

- E o que me sugere?

- Eu sugiro, e veja bem minha bondade, que continue a fumar, que beba mais e com mais assiduidade e assista menos televisão.

- E o que a televisão tem com isso?

- Ela informa, e se alguém achar que você fuma somente para burlar as regras negará também sua alma. Dai vêm as sequelas vitalícias de determinadas doenças.

- Mas não é você quem faz as regras? Por que me ensina como burlá-las?

- Pobre rapaz, eu simplesmente lhe neguei a morte premeditada. Tenho um regimento a seguir, mas nele não há nada sobre o que posso e não posso falar.

- Ah! Que complicação por um simples suicídio, eu...

Subitamente a fumaça desapareceu. Tales caminhou até a porta, voltou à estante e acendeu outro cigarro. Então saiu.

terça-feira, novembro 24

Por Que Não Para Você?

Amar de uma vez não tem graça.
Tem que ser aos poucos,
nos pequenos encontros.
Assim se descobre o amor:
no meio de outros,
aquele amor de olho.

Cada olhar, despretencioso que seja,
representa um centelha.
Breve esperança.

Passam vários amores,
versos irregulares de inúmeras dores.
Mas agora é dela,
cada letra, cada estrofe.
Escrevo só para ela.

sábado, novembro 14

Com Todos os Motivos Para Morrer

Com todos os motivos para morrer
encontrei um para viver:
Escrever os motivos pra morrer
e deixá-los eternos para alguém ler.

Vou escrever em forma de prosa,
escondido em personagens incoerentes,
tudo que não posso dizer
por motivos quase indecentes.

Vou escrever tudo em verso
para todos lerem e ninguém entender,
enrolar com sintaxe complexa,
já que o vocabulário pouco chega a se estender.

Vou escrever meu próprio epitáfio
e escondê-lo entre um diálogo e outro.
Espero que notem, avisar não vou.
Não importa, no final enterra-se nada mais que um louco.

sábado, outubro 24

- Como eu te amo. Te amo muito, de fora pra dentro. Sai de você e entra em mim, toma conta de cada célula morta da epiderme e depois entra por cada poro até as veias que levam ao coração. Não sei muito bem, mas dizer que te amo me faz bem, alivia o peso da dúvida, do medo. Cada abraço traz o carinho e o amor. Amo todos eles. Parece piegas, e só de usar essa palavra fica ainda mais, mas eu te amo.

- Eu... não... eu...

- Eu sei. Desculpe voltar nesse assunto.

sexta-feira, outubro 16

O amanhecer nublado encanta, tem um céu azul logo ali, escondido.
Será só nas cidades de dois andares que os pássaros cantam ao alvorecer?

quarta-feira, outubro 14

Que sol, que dia, que calor. Que inferno!
sinto falta do inverno com amor.

Queria ter sangue carioca, saber amar no verão.
Encher de areia e água o coração.

Ah, que inveja sinto.

quarta-feira, outubro 7

Conversa de Homem

- Ela terminou comigo...
- É foda. Ela, não a mesma, também terminou comigo.
- Será que que um dia vai existir alguém que saiba amar?
- Vai, e serão as mesmas pessoas que agora não sabem. Até lá, nós que sabemos nos fudemos.

segunda-feira, setembro 21

sábado, setembro 19

Queimou

Queimou, sumiu tudo.
Toda árvore, todo bicho
queimou.

Queimou, eu queimei.
Do ódio, do ciúme
queimei.

Mas voltou mais belo.
Não nasceram as mesmas árvores
Não vieram os mesmos bichos.
Era tudo novo.

E no meio de tudo era ela,
era nova, não aquela.
Fiz novo o amor,
outro simples amor.

domingo, setembro 13

Alguém bem que poderia me tirar dessa cama. Odeio esse ambiente putrefato e com cheiro de estéril que insistem em cultivar, apesar de adequar-me a ele ultimamente. Um amigo, Eulálio, dia desses disse o quanto odiava hospitais, não acreditei muito por causa da morfina, mas agora, ébrio da mesma substância, acredito. É chato ver as mesmas enfermeiras todos os dias, os mesmos médicos toda semana e não ver nunca uma garrafa de cognac. Se ainda pudesse mover as mão escreveria um livro, só sobre agulhas intravenosas, ou sobre transplante de fígado, mas esse último somente com muita pesquisa, pois infelizmente ainda não morreu o filho da puta que tem um fígado que preste. É irônico, mas sinto a necessidade de desculpar-me à minha mente pela falta de classe. O céu é sempre azul daqui, parece que é só para me provocar a viver até ver um dia de chuva, coisa que sempre me animou e permitiria um morte tranquila e satisfeita. Sei que atrás da porta há um vulto negro esperando o momento certo, deve ser por isso que não me chega um fígado, a morte anda muito ocupada a me esperar. Por que não pintam o teto? Toda vez que acordo me pergunto se morri ou somente acenderam as luzes.
Abriram a porta, de súbito o teto ficou preto, um apito cada vez mais constante me irrita os ouvidos, que será? Entrou o esperado vulto, devagar e calmo, logo depois meia dúzia de irritantes seres de branco que rapidamente começaram a agredir meu peito com desfibrilações ritimidas. Passou a dor, passou o cansaço, até consigo sorrir, rio de escárnio daqueles idiotas a tentar reviver um corpo já sem alma enquanto os assisto de fora. Sai da cama andando, meu novo amigo é um vulto, mas é belo e encantador, sem nada dizer convenceu-me a seguir ao seu lado.
De que vale a vida senão para morrer? É. Nós, babacas humanos, vivemos sempre em busca de um motivo para viver, ignorando o fato de que o motivo está a nossa frente o tempo todo: a morte. Vivemos sempre felizes e aproveitando cada dia por que sabemos que vamos morrer, ou vivemos tristes e reclusos por temer o inevitável. Espantoso é ver que há quem negue veementemente essa verdade e insista em viver por viver, viver por amor, viver por alguém. Tolos. Esperto sou eu que espero alguém para ceifar-me a vida, já que sou covarde demais para fazê-lo.

sexta-feira, setembro 4

Demais

Que pessoa passional eu sou. Apaixonei-me por todas as mulheres que conheci, sem exceção; e cada uma delas ocupou espaço em minha vida. Mas uma, só uma, ocupou um lugar em meu coração. Essa mulher, que não profanarei o nome, nasceu e cresceu com um só objetivo: amar. Mulher que a inquisição queimaria, que os magos me fariam ciúme, os poetas cantariam e, por si só seria poesia. Odes a ela eu escreveria, mas volumes imensos não conteriam tamanha beleza; músicas não sabem cantar sua voz, que só os pássaros ousam imitar. Amei insuficientemente aquilo, amei demais para me aproximar. Amei.

sexta-feira, agosto 28

Vou parar com essa mania de acordar todo dia.
Vou sair dessa vida de dor e agonia.
Vou fazer da minha morte pura poesia.

quinta-feira, agosto 27




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sábado, agosto 22

Cativeiro

Não dá pra ver através da porta, é daquelas de vidro esfumaçado, pelas quais só vemos manchas, mas está suja. As janelas estão limpas, mas só dá para ver as folhas das árvores que rodeiam a casa. É o suficiente somente para saber se é noite ou dia, sem mais precisão, isso já basta.

Estou aqui há quinze dias, já nem importa se chove, não chove, eu só queria sair e ver coisas velhas que seriam novas. Eu só queria estar livre.

Ela não me deixa sair, nem olhar lá fora, mas também não fica aqui, sai, volta só para lembrar-me que estou preso e que poderia sair, mas não consigo. Estou ficando bastante cansado disso, já escapei uma ou duas vezes, mas fui prontamente recapturado, incrivelmente gostei de voltar no começo, tinha me assustado com o mundo lá fora, três meses passam rápido.

Estou aqui há um ano, boas novas, ela nem volta mais, foi e prendeu outra pessoa, eu fiquei, saio e volto, vivo aqui agora. Eu sei que poderia ser mais livre, mas gosto de me manter preso.

segunda-feira, agosto 17

-Eu te amo, viu?

Adorava dizer isso como se não fosse nada, de brincadeira, só para lembrá-la disso. Adorava sua reação, fingia que ficava incabulada e respondia reciprocamente. Adorava me despedir sorrindo, só por ter dito mais uma vez que a amava. Desligar o telefone e ficar parado, sorrindo pro nada, só de ouvir palavras bobas. Adorava, ainda adoraria se o tivesse, se não tivesse deixado escorrer, pouco em pouco, a coisa que eu mais amava, o amor dela.

terça-feira, agosto 11

Alberto não tinha nada, mas tinha esperança. Não procurava emprego, tinha esperança de que um dia ia ganhar na Sena e não ia precisar mais de nada. Não tinha casa, esperava que alguém um dia ia lhe dar o devido valor e tirá-lo da rua. Não usava roupas no frio, tinha esperança de que a noite ia ser quente. Nunca abriu um guarda-chuva, sabia que a chuva já ia passar. Não tinha mulher, tinha esperança de que seu grande amor ia voltar. Mas não voltou, não parou de chover, não fez calor, não lhe deram valor nem ganhou na Sena. Mas sabia que um dia ia conseguir.

terça-feira, agosto 4

O Homem

Morreu um homem,
morreu um amor.
Fez sentir no mundo o que sempre sentiu por dentro.


Nunca havia pego uma arma. Procurou um velho amigo que poderia lhe arranjar uma pistola e pagou cinquenta reais por ela, conseguiu também munição, mas por isso não pagou. Pensou em como era fácil conseguir uma arma naqueles dias.

Acordou cedo, queria apreciar aquele dia. Olhou para o céu, olhou para o inferno, olhou para a Terra, pássaros, flores, a água corrente da torneira - tanta coisa que nunca dera valor. Almoçou bem, comeu naquele restaurante que tantas lembranças lhe trazia. Nem aguentava comer aquele bife à milanesa imenso, mas comeu somente porque não poderia guardar para o dia seguinte. Passou a tarde nas redondezas, visitou sebos, aproveitando para doar seus livros de poesia, ligou para algumas pessoas e teve algumas conversas triviais. Anoitecendo voltou para casa, ligou o ar condicionado - era melhor manter o ambiente frio. Carregou a pistola com três balas, observando cada uma delas com atenção, já que era a primeira vez que lidava com tais coisas. Andou rigidamente até seu quarto, despedindo-se de cada um dos cômodos. Posicionou entre os dentes o cano frio, titubeou, atirou para cima para sentir a arma, encostou o cano nos olhos, na orelha. Voltou para a boca, encostou o cano no céu da boca, fechou os olhos. Puxou o gatilho.

segunda-feira, agosto 3

Defeitos

Sinto-me bem com meus defeitos. Quando estamos sozinhos, eu e eles, meus defeitos se tornam tudo, e cada vez que noto um deles, sinto um pequeno lampejo, uma prova de existência. Um dia, eu e a Inveja tivemos maravilhosa conversa sobre como ela me fazia distanciar das pessoas. Noutro, o Egoísmo, olhou-me nos olhos e disse, desavergonhadamente, que sem ele eu não seria nada do que sou; triste, sozinho, siso. Ah, como sou feliz com meus defeitos, com eles, só eles e ninguém mais.

terça-feira, julho 28

Ele olhou fundo nos olhos dela e disse, com a voz trêmula, tudo aquilo que achava que devia e um pouco do que não devia.

-Sabe, não é fácil te encontrar.
-Nunca foi, mas antes era só por causa da ressaca

segunda-feira, julho 27

Outro motivo para viver?

Outro motivo para viver? Ah, não encontro. Procuro em tudo, em todos, em todas. Não encontro. É simples, não? Não! Só quem amou um dia sabe o quanto dói. Dói saber que tudo que escreves é clichê, dói pensar em si mesmo como um desafortunado babando palavras bobas de amor. Dói só de pensar em ouvir tudo isso que digo.

sábado, julho 25

Dores de cabeça constantes

Dói, dói muito. Dores de cabeça constantes, gritos incessantes de um nome que não compreendo. Gostaria de entendê-lo, procurar por ele. Talvez parasse minha dor se parassem de gritá-lo à minha orelha. Maldita a hora em que comecei a escutar os ruidos da minha mente, por prazer, por curiosidade. Agora só queria ensurdecer. Há quem queira me internar, remediar, tratar. Não! Queria só dormir sem ouvir aquelas vozes e acordar em silêncio. Talvez acordar em total silêncio resolvesse, só silêncio. Fúnebre silêncio.

segunda-feira, julho 6


Cavei profundamente.
Procurei no fundo o amor.
Alcancei o limite, e o que?
Soterrei-me de amor.
Isso é amar, morrer por amor.
Morrer sem amor.

quarta-feira, junho 17

"Não espero que ninguém entenda minha tristeza, e digo mais, quem o tentar fazer, por favor, o faça longe de mim. Ah, que tristeza é essa minha, é linda; mas só eu vejo beleza, por que é minha."

sábado, maio 23

Se

Se eu for poeta,
que me leiam
Se eu for músico,
que me escutem.

E se eu nada for?
Que sejam outros!
Que eu os leia e escute.
Para sentir a inveja prazerosa
dos que querem sem ser.

terça-feira, maio 19

Que faço agora,
que já não olho para o céu esperando que escureça?
Vejo luz, vejo nuvem. Vejo minh'alma voltando.
Será isso o fim, ou só um novo começo?

quinta-feira, abril 30

Descalços

Olhando por baixo do portão dava pra ver os pés de quem passava na calçada, era só isso que eu fazia, olhar por baixo. Via quem passava, tentava identificar rotinas pelos sapatos e conversas altas, mas nunca abria e via rostos, seria amedrontador demais. Não era triste por viver assim, sentia prazer em ser ninguém no mundo enquanto via a parte mais suja de todos que passavam. Vez em quando passava um caminhão mais alto, muitas vezes eram trios elétricos indo ao carnaval, nessas horas até via rostos, todos estranhos e que não se relacionavam aos pés. Era essa minha rotina até o dia em que um ela ficou parada em meu portão para se esconder da chuva. Era descalça e tinha uma pequena tatuagem de borboleta no pé esquerdo. Lindos. Os pés mais perfeitos que já tinha visto em anos. Todos os dias esperava por ela com amor, só para vê-los novamente, mas nunca passavam. Uma vez, uma única vez eu queria vê-los, quem sabe eu teria coragem de abrir o portão. Eles nunca vieram, eu fiquei ali, olhando, esperando. Já não era prazeroso, a cada dia sentia mais medo de não vê-los, medo de que minha prisão fosse realmente eterna. Passaram-se anos. Não tem mais sentido essa vida. Se agora lê o que escrevi pode encontrar um corpo putrefato perto do armário, e à ela, que nem sei quem é, digo: te amei, só pelos pés, te amei.

sexta-feira, abril 24

Era uma apaixonada. Louca, insana, inconsequente. Mas no final, uma apaixonada. Não só por ele - ou aquele, como queiram. Mas pela vida, vida dele e dela, juntos, como um, que eram. Era apaixonada não só por acordar amando, que é fácil, mas também amando alguém que a amasse, que é difícil. Era amada por ele, que também era apaixonado por essa vida, dele e dela, juntos, como um, que eram. Mas era também apaixonado por ela, o que fazia dele, na concepção masculina, seu dono, o que não era. Ela, que amava a vida, não deixava de viver por ele, que deixava, mas não por ela e sim por pensar ser essa sua obrigação, que não era. Isso era ruim, de fato, não por ele, mas por ela, que ouvia dele, impiedosamente, sobre seu orgulhoso, mas burro, sacrifício. Ela, inocente, achou, por um tempo, que era obrigada a sacrificar-se também, que não era. Ela, depois do tempo, notou que não era dele, e decidiu, depois de analisar a situação, que devia deixá-lo. Ele, que a esqueceu depois de dois meses de choro, mudou-se e se casou com outra, linda, mas outra. Ela, que chorou por uma ano, nunca o esqueceu de fato, e até hoje chora sozinha quando ouve aquela música, que é deles, dele e dela, quando juntos, como um, que eram.

sábado, abril 18

Educação

De que me adianta, diante da atual conjuntura social, tentar ter algum aprendizado? Estudo vírgulas, pontos, multiplicação, divisão, mapas e o passado. Para que? Se das bocas alheias não saem quatro palavras seguidas; se os números não passam de trocados; se o mundo não passa dessa cidade; se minha longevidade nem se aproxima do futuro.

quinta-feira, abril 9

Me falta...

Falta-me a inspiração,
as teclas já não me chamam
enquanto os olhos queimam em chamas.

Falta-me o tempo,
tempo fora da cama
que já foi o reino de quem ama.

Falta-me você,
já que não me chama
deixo a areia dos olhos virar lama.

domingo, abril 5

Eternamente, se assim quiseres.

"Todos um dia cansam do amor, de cantar amor; de escrever amor; de ler amor; de sentir amor. Isso é natural, não é? É, mas não para todos. Têm aqueles que nunca param de sofrer, para os quais amor não é algo na vida, é a vida em si. Aqueles que olham abobalhados para casais enamorados pelo shopping, que fitam impiedosamente os olhos de uma mulher antes de ver um corpo. Que veem em um seio a beleza, e não a impureza. Que amam ao belo, desde que assim lhe pareça."

- Isso sim é uma frase para se por no orkut. - disse depois de ler.

- Não tenho orkut, e não é uma frase, é um texto. Pequeno, mas é um texto.

- É, onde você achou?

- Escrevi...

- Realmente, tem uns otários que são assim mesmo. Melhor pra gente, ? Sobra mais mulher. - disse debochando dos "otários".

- É, você tem razão.

Recolhi o papel, guardei no bolso. Saí de perto um tanto triste, esperava mais sensibilidade de um amigo. Cheguei em casa e liguei novamente para ela, como sempre sem resposta. Pensando bem, o pior não é ser um dos "otários", é saber que ela não gosta de "otários".

quarta-feira, abril 1

Agora que alma
já não sinto a dor do corpo,
livrei-me do peso morto
para feliz finalmente ser.

quinta-feira, março 26

Se tu me amas

Se tu me amas
sobe ao telhado,
grita aos pássaros.

Para amar-me,
faça o mundo saber,
mate seus ex-amados.

terça-feira, março 24

Pensamentos breves...

"O amor é o único sentimento que, numa balança equivalente, pode ser trocado por dor e um punhado de belas palavras."

André Bastianon

Uma pinga com limão pra quem souber o último sobrenome.

segunda-feira, março 23

Fim.

"Ah o amor! Vem, alegra; vai, mata. Não! O amor não mata, nós nos matamos, ou somos mortos por outrem. Mas e se o amor tivesse cura? Ou uma maneira de ser correspondido? Às vezes parece haver só uma solução, a morte. Mas a morte é muito forte, vai deixar dores de amor em outras pessoas que talvez eu nem imagine, é injusto. Já sei! A solução é abdicar dos sentidos, viver no mundo alternativo; sem eufemismos: o álcool!"

Assim comecei a conversa com ela naquele dia, uma pena o tom cínico não poder ser plenamente reproduzido no papel. Ela perguntara como eu estava, acho que ela esperava uma resposta assim depois de me deixar agonizante por cinco anos.

Vale a pena voltar sete anos só para explicar essa história; quem nos conheceu nem imagina tudo o que se passou, éramos o casal perfeito, pena que só vistos de fora. Começamos a namorar naturalmente, como todos esperavam. Continuamos namorando naturalmente, como todos esperavam. De repente terminamos, como ninguém esperava.

Ela não me amava mais, eu a amava ainda. Fim.

Que amor é esse?

Nunca esperei pelo amor tonto, aquele vazio, sem graça, de novela das oito; eu sempre esperei pelo amor lindo, de nascer junto, viver junto, protestar junto, e no final, mas só no final, morrer junto. Será que eu estou errado? Vai ver esse amor que eu quero é o amor tonto e o que eu chamo tonto é o amor de verdade. Quem será o certo: Glória Perez ou Álvares de Azevedo? Que será melhor: amor movido a cognac ou amor movido a chope cenográfico?

Acho que estou fazendo a pergunta errada, ou melhor, estou errado de estar perguntando; certo é o bom e velho in-out in-out de Alexander DeLarge, aquele que não deixa resquícios, só o êxtase momentaneamente eterno do orgasmo. É melhor eu aproveitar, todos um dia sofrem a lavagem cerebral que destrói a graça da vida; transformando-a somente em amor. Ou será que eu já vivo só de amor?